Episódio ocorrido em Cuiabá nesta segunda não é mais um número, mas um alerta.
A manhã desta segunda-feira (16) começou com mais um capítulo doloroso nas estatísticas da violência contra a mulher. No bairro Osmar Cabral, em Cuiabá, a professora Luciene Naves Correia, de 51 anos, foi assassinada dentro de casa pelo ex-marido, Paulo Neves Bispo, de 63 anos.
Casados por 31 anos, o relacionamento havia terminado sob a necessidade de uma medida protetiva de urgência — instrumento legal criado justamente para impedir que ameaças se transformem em tragédias. Ainda assim, segundo informações da Polícia Militar, o suspeito pulou o muro da residência e surpreendeu a ex-esposa enquanto ela tomava café da manhã. Os disparos foram fatais.
Após o crime, o agressor fugiu em direção ao bairro Jardim Liberdade. A suspeita é de que ele estivesse a caminho da casa da filha do casal. A intenção, conforme apontam relatos preliminares, seria cometer outro assassinato. O desfecho só não foi ainda mais devastador porque, no trajeto, ele se deparou com um policial militar à paisana, que interveio. Houve disparos. O suspeito foi atingido e morreu no local.
O caso escancara uma realidade que insiste em se repetir: medidas protetivas nem sempre são suficientes para conter a fúria de quem transforma frustração em violência. Mais do que isso, revela um elemento ainda mais perturbador — a possibilidade de que os filhos sejam incluídos no roteiro de vingança.
Não é a primeira vez que a barbárie avança nessa direção. Em Itumbiara, um pai matou os próprios filhos sob o argumento de atingir a esposa, em um ato que misturou vingança e distorções emocionais profundas. Ali, as crianças foram vítimas diretas do ressentimento. Em Cuiabá, a história poderia ter seguido o mesmo caminho, não fosse a intervenção rápida que impediu que a filha também fosse morta.
O feminicídio no Brasil apresenta crescimento preocupante nos últimos anos, revelando não apenas conflitos conjugais mal resolvidos, mas uma cultura de posse e intolerância diante do fim das relações. Quando o agressor não aceita a autonomia da mulher, o rompimento passa a ser tratado como afronta pessoal — e, em casos extremos, como sentença de morte.
O episódio desta segunda-feira não é apenas mais um número. É mais um alerta. E carrega um agravante que assusta: a ampliação do alvo. Em algumas dessas tragédias, a violência já não se limita à mulher — ela ameaça alcançar também os filhos, transformando o drama conjugal em extermínio familiar.
Em Cuiabá, uma filha quase entrou para essa estatística.
Em Itumbiara, dois filhos não tiveram a mesma chance.
O que se vê não é apenas o aumento do feminicídio.
É a escalada de uma barbárie que começa na incapacidade de aceitar o fim — e pode terminar na destruição de toda uma família.