Lelis Martins de Souza deixa marcas que confirmam sua passagem por este mundo
Ao planejar passar o final de ano em Castanheira, para vivenciar a tradicional virada ao lado dos familiares — incluindo o irmão Virgílio, a cunhada Sandra e demais agregados — Lelis Martins de Souza não imaginava que aquela viagem não teria retorno. Jaciara, cidade de onde saiu, ficaria para sempre como o lugar das lembranças, do trabalho honesto, de muitas lutas, mas também de muitas bênçãos colhidas ao longo do caminho.
Ele e a esposa chegaram no início da noite do dia 30. Já encontraram em Castanheira um dos filhos, residente em Rondonópolis, e, ainda naquela mesma noite, chegou o outro, que vive em Campo Novo do Parecis. O que parecia ser apenas um reencontro familiar, com a presença da matriarca Lázara Aparecida de Souza, transformou-se, silenciosamente, em um tempo de despedida. Na manhã seguinte, por volta das 6 horas, Lelis partiu.
Entre o riso do reencontro e o pranto da perda inesperada transcorreram cerca de doze horas. Tempo curto, porém suficiente para revelar uma das verdades mais duras da existência humana: “o coração do homem faz planos, mas a resposta vem do Senhor” (Provérbios 16.1). A partir dali, os finais de ano — ainda que carreguem o apelo simbólico de recomeços — nunca mais serão os mesmos.
Lelis deixa marcas que confirmam sua passagem por este mundo. Desde a infância já demonstrava ser alguém alegre, leve e de bem com a vida. Uma cunhada, que prefere permanecer no anonimato, recorda com carinho suas travessuras de menino e conta, entre risos e saudade, que ele era frequentemente o escolhido para enterrar o café queimado quando os irmãos erravam no preparo — um gesto simples que hoje se transforma em memória afetiva e riso saudoso.
Sua infância foi marcada pela vida no campo, na pequena Paranaiguara, no sul de Goiás, onde viveu até os 16 anos. Ainda jovem, migrou para Mato Grosso, atraído pelas boas notícias trazidas por um de seus sete irmãos. A partir dele, iniciou-se um verdadeiro êxodo familiar, que envolveu outros irmãos e os pais. O primeiro destino foi Araputanga, onde Lelis trabalhou no Banco Itaú e no Laticínios Lacbom. Foi ali que conheceu Mônica, com quem se casou em julho de 1994. No ano seguinte, nasceu o primeiro filho.
Se sua vida pudesse ser escrita em capítulos, o seguinte teria como cenário Jaciara, para onde se mudou em 1999. Ali nasceu o segundo filho e ali Lelis consolidou sua história profissional na Cooperativa Mista Comajul. Era reconhecido como um homem de energia contagiante, sorriso fácil e presença marcante, mas também profundamente empático, especialmente nos momentos de dor.
Essa empatia se aprofundou com duas perdas que marcaram sua caminhada: a morte do pai, em 2019, e do irmão mais velho, Nildomar, em 2021. Essas ausências despertaram nele um desejo ainda maior de manter a família próxima, unida e presente nas datas significativas. Foi com esse espírito que, no penúltimo dia do ano, decidiu viajar para Castanheira. O plano era simples e precioso: “estar juntos” no dia 31. Não foi possível.
A celebração planejada deu lugar ao silêncio, às lágrimas e à lembrança de um adeus. “Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e tempo de rir” (Eclesiastes 3.2–4). O tempo do riso foi interrompido, mas não apagado. Ele permanece vivo na memória, nos gestos, nas histórias e no amor compartilhado.
Lelis deixa a esposa Mônica, os filhos Lelis Júnior e João Victor, os irmãos Virgílio, Jobes, Vanda, Euripedes (Neto), Vânia e Regina, além de sobrinhos, cunhados e inúmeros amigos. Parte para reencontrar, na eternidade — onde já não existem os limites do agora — o irmão que também partiu.
Deixa, sobretudo, um legado invisível, porém eterno: o de quem viveu com alegria, trabalhou com dignidade, amou profundamente e fez da família seu maior tesouro. E, mesmo na dor, permanece entre familiares e amigos, gratidão por tudo o que foi vivido, compartilhado e amado e a lembrança de que “Aqueles que amamos nunca morrem; apenas partem antes.”