A mística da cidade gira em torno da icônica Castanheira-do-Brasil (Bertholletia excelsa) que se encontrava exatamente no traçado da antiga rodovia AR-1
A história da fundação de Castanheira, em Mato Grosso, é um exemplo fascinante de como o desenvolvimento urbano pode se curvar à preservação ambiental. O município surgiu a partir do Projeto de Colonização Juína, na década de 1970, liderado pela Codemat (Companhia de Desenvolvimento do Estado de Mato Grosso).
Enquanto a maioria das cidades da época via a floresta como um obstáculo a ser superado para o progresso, Castanheira nasceu com uma identidade profundamente ligada à sua flora nativa. O assentamento de famílias vindas de diversas regiões do Brasil transformou a paisagem rural em um centro urbano pujante, mas a manutenção do nome e de seus símbolos naturais garantiu que a herança da floresta amazônica permanecesse viva na memória coletiva de seus habitantes até a sua emancipação política em 1988.
A mística da cidade gira em torno da icônica Castanheira-do-Brasil (Bertholletia excelsa) que se encontrava exatamente no traçado da antiga rodovia AR-1. Durante a abertura da estrada, a decisão de não derrubar o gigante da floresta forçou um desvio na pista, fazendo com que a árvore permanecesse majestosa no centro da via, como uma sentinela na entrada do município.
Mais do que um simples marco geográfico, essa árvore tornou-se o maior símbolo de resistência e identidade local, sendo incorporada ao brasão oficial da cidade. Embora o tempo e o crescimento urbano tenham alterado os arredores, a "árvore que desviou a estrada" continua sendo o testemunho vivo da fundação de Castanheira e um lembrete do respeito que a comunidade nutre por suas raízes.
O Brasão e a Identidade Oficial
A Castanheira no meio da pista não é apenas uma curiosidade turística; ela é o pilar central da heráldica municipal. No Brasão de Armas de Castanheira, a árvore aparece em destaque no centro do escudo, simbolizando tanto a riqueza vegetal da região quanto a força da população. O fato de ela ter sido preservada durante a construção da rodovia AR-1 é interpretado localmente como o primeiro ato de "teimosia positiva" e identidade da cidade, representando o equilíbrio entre o progresso (a estrada) e a natureza (a árvore).
Hoje, a árvore é carinhosamente chamada de "sentinela" por quem entra na cidade vindo de Juína ou seguindo para Juruena. A manutenção da rodovia ao redor dela exige sinalização específica para evitar acidentes, transformando um potencial obstáculo de trânsito em um monumento natural que obriga o motorista a reduzir a velocidade e admirar a história local.
A foto utilizada neste texto é um dos registros mais antigos da Castanheira da entrada da cidade e foi enviada por Maurício Nantes, da equipe inicial da CODEMAT. Da primeira turma de engenharia da IFMT, esse sul matogrossense foi diretor do SICOOB e esteve no município na reunião inicial para implantação de uma agência desta instituição na cidade.