Há fotografias que não registram apenas um instante — elas guardam o nascimento de um tempo.
A imagem desta editoria nos leva de volta aos primeiros passos de Castanheira, quando a cidade ainda era promessa desenhada em chão vermelho. Havia, sim, uma história oficial. Mas havia também as histórias sussurradas nas varandas, contadas ao redor da mesa simples, carregadas de poeira, coragem e esperança. E são essas variantes que tornam o começo ainda mais verdadeiro.
A fotografia pertence ao acervo de Zilda Stangherlin — mulher que pisaria duas vezes no solo firme da responsabilidade pública, sendo a primeira prefeita do município. Mas, antes do cargo, houve a cidadã; antes da gestora, a mãe; antes da autoridade, a pioneira.
Seus relatos têm sido fonte constante para este site e para a Revista Innovare News. Ela viveu quando viver aqui exigia mais do que vontade — exigia resistência. As bicicletas dominavam a paisagem. A “magrela” era ponte entre casa e escola, entre o sonho e a realidade. Muitos dos que hoje são empresários, produtores rurais e profissionais respeitados já pedalaram pelas ruas de terra, equilibrando no guidão não apenas o corpo, mas o futuro.
Zilda recorda que seu filho, Marcos, atravessava um trecho de mata para chegar à Escola Maria Quitéria. Como mãe zelosa ela pedia para tomar cuidado com as cobras. "Não havia asfalto, não havia facilidades — havia coragem. A única rua, que começara como um picadão aberto na marra, trazia uma ladeira que descia para um bueiro improvisado", destaca. Anos depois, já prefeita, uma de suas primeiras intervenções seria ali. “Deixei tudo reto”, conta, emocionada. E a frase é mais do que engenharia: é símbolo. Endireitar caminhos sempre foi mais do que obra — foi missão.
Provocada a recordar as primeiras referências da então rua principal — hoje a Avenida 04 de Julho — sua memória desenha um pequeno mapa afetivo: a Farmácia do Ênio, o Bar do Piauí, o Mercadinho do Roque, a pensão de sua xará, Dona Zilda. Pontos simples, mas que sustentaram sonhos grandes.
Quem vê a avenida movimentada de hoje talvez não imagine que, naquele tempo, a rua mais importante da cidade abrigava “umas 15 residências”. Quinze casas. Quinze luzes acesas à noite. Quinze histórias entrelaçadas pelo mesmo destino.
Os tempos eram difíceis — disso ninguém duvida. Mas quando os pioneiros falam daqueles dias, a palavra que sempre retorna não é “sofrimento”. É “inesquecível”. E talvez seja essa a maior herança da fotografia: lembrar que antes do concreto houve barro, antes da pressa houve espera, antes da cidade houve fé.